EXPOSIÇÃO GUSTAVO RIGON PEQUENAS ESTÓRIAS

 

TERRENOS INUNDADOS

Uma protonarrativa sobre as tensões de uma superfície em cor

Umbelina Barreto

 Pensar em desenhos que emergem da água colocada sobre um suporte de papel pode ser tão saboroso como pensar em campos de arroz de jasmim, de onde emana um aroma indescritível. Pois são assim os desenhos de Rigon: aromáticos e saborosos.

O artista, de certa forma, vai “encontrando” os seus desenhos nos alagadiços que provoca em um fértil campo de criação. E nós, observadores atentos, vamos “colhendo os frutos” desse processo que nos faz percorrer visualmente caminhos em que reconhecemos novos mundos, novas narrativas em personagens que fazem parte da ação registrada no tempo.

O desenho vai sendo cultivado a partir das restrições impostas pela acumulação da água, que Rigon joga sobre o suporte.  Mas a tinta também é jogada nas poças d’água, e isso faz com que o mineral que define a cor sedimente e forme algumas estruturas que se espelham em estruturas geológicas. É como uma mancha condensada no tempo. E, é durante esse processo, que o grafite vai sendo utilizado, traçando os limites da poça d’água gerada pela tensão superficial sobre a superfície plana do papel, definindo o seu desenho como se fosse uma protonarrativa sobre as tensões de uma superfície em cor.

Ao olhar os desenhos de Rigon, fica-se sempre a procurar na memória um universo de referência e, em um primeiro momento pode-se até pensar no surrealismo, nos apontamentos automáticos de Max Ernst construídos como uma história natural, ou ainda nos espaços anamórficos de Salvador Dali, no início do século XX.

Mas, se a memória aponta a pintura automática dos surrealistas, de qual universo o artista está a falar hoje, no início do século XXI? A criação dá-se no espaço da inundação do papel e o jogo da narrativa nos desenhos de Rigon é tão forte que ao nos depararmos com alguma figura já vamos adentrando no espaço como se estivéssemos a entrar no universo narrado. Pode-se, por vezes, ver uma figura alada a conversar com o gato de Alice no país das maravilhas, pois os mundos ficcionais da fantasia também dialogam com os desenhos de Rigon. No trabalho do artista, a criação de novos mundos não passa despercebida, pois fica-se a tentar a ler a história de onde saíram. Estão em suspensão ou se referem a mundos suspensos? Ou talvez, dentre esses mundos, se possa pensar, simplesmente, no mundo da linguagem.

Rigon diz que poderia começar contando uma história: em um mundo em extinção uma mulher-árvore vai soltando as sementes para uma nova semeadura, que, como terrenos cultivados vão narrando novas histórias, cruzando desenhos mínimos em espaços máximos que vão sendo puxados das poças, ou seriam poços? Não, os desenhos de Rigon não saem de poços, pois referem-se à linguagem e são como as dobras da superfície São como leves origamis em devaneios da matéria que se mostram em caminhos percorridos, nos quais ele vai deixando personagens que seguem sempre em procissão.

Nos caminhos construídos por Rigon como desenhospinturas, a água gera surpresas plástico-gráficas em reiterados mapeamentos, e a partir desse espanto as personagens vão sendo criadas e vão sendo narradas como em uma grande procissão. São seres surgidos da água e petrificados na cor que vão sendo aprisionados pelo grafite que os vai desenhando a todos, e, aqueles que não são desenhados, são, simplesmente, sedimentados. Estaria aqui o automatismo de Rigon? Estaria nesses restos e sobras acumulados ao acaso?

A imaginação é interessante, mas, talvez ela precise ser motivada por algum tipo de estrutura, aparentemente aleatória, que emerge de superfícies naturais, ou mesmo construídas e que já sofreram a ação do tempo. Sedimentações e estruturas geológicas desenham o tempo. E, talvez seja esta a ideia de tempo a que Rigon se refere quando menciona os restos e sobras que vão sendo acumulados ao longo de nossa própria história. E o artista pode, simplesmente, coletar e acumular na água as sobras de outros tempos, sem ser crítico e sem censurar o que vai sendo levado de um momento a outro.

Em que sentido, em que sentido, diria Alice, que não compreende que a linguagem pode ter múltiplos sentidos. Mas Rigon diz: é como fotografia de praia, em que eu vou fotografando os achados e quando os acumulo, eu os inundo, mergulhando-os na água e voltando a fotografar o conjunto submerso pela água, pois, novamente é a superfície o que se tenciona e é exatamente aí onde busco novos aromas e novos sabores.

Fico pensando! Seria essa a forma de encontrar a maresia? Como pode-se passar da sedimentação à erosão e vice-versa?

Os desenhos de Luiz Gustavo Rigon nos deixam inundados, pois parece que são parte de um universo que não tem fim e que se poderia percorrer eternamente e, ainda assim, seríamos sempre surpreendidos em um ou outro sentido.

Dezembro de 2016.

Prof.ª Dr.ª Umbelina Barreto Instituto de Artes da UFRGS

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