Em 10 de setembro de 2017, a censura se mostra em Porto Alegre com o cancelamento da exposição Queermuseu: cartografias da diferença na arte da brasileira, “…uma exposição que busca produzir um engajamento em torno de questões de expressão e identidade de gênero a partir de uma perspectiva de diversidade e diferença, utilizando-se de uma inteligência estratégica queer” como define seu curador, Gaudêncio Fidélis.
A mostra, que reunia trabalhos de artistas reconhecidos e celebrados internacionalmente – dentre os quais Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Alair Gomes, Candido Portinari, Flávio de Carvalho e Ligia Clark – deveria estar aberta ao público entre os dias 15 de agosto e 08 de outubro de 2017, no Santander Cultural (Farol Santander), mas foi encerrada após campanha difamatória promovida por grupos religiosos e políticos nas redes sociais.
Para além das acusações de que a exposição era composta de obras que fariam apologia à pedofilia, zoofilia, ofensas à tradição católica e acesso de menores à temáticas que não seriam adequadas, revelou-se a tentativa de impor limites à arte e a exclusão de temas relacionados à comunidade queer, exilando todo um grupo dos espaços tradicionais da cultura.
Em protesto contra a interrupção da Queermuseu, setores da classe artística e da academia, bem como diversas organizações vinculadas à defesa dos direitos LGBTQIA+ – como o Nuances: grupo pela livre expressão sexual – organizaram, em frente ao Santander Cultural (Farol Santander), o Ato pela Liberdade de Expressão Artística e Contra a LGBTFobia, “em defesa da liberdade de expressão artística e das liberdades democráticas” (Nuances).
Todo esse panorama resultou no envolvimento da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão/RS (MPF), que considerou todas as acusações improcedentes, afirmando não haver crime de qualquer espécie e recomendando a imediata reabertura da exposição. O Santander Cultural (Farol Santander), não acatando a decisão do Ministério, celebrou um Termo de Compromisso Consensual com este, pagando uma multa que foi revertida a projetos de instituições, organizações e movimentos que lutam pelos direitos humanos, gerando o Edital Eu Sou Respeito.
A Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa (Associação Chico Lisboa) considerou esse edital como uma oportunidade para exercer sua função primária de promover as artes de uma maneira abrangente e conectada com as demandas sociais contemporâneas, como as relacionadas à temática LGBTQIA+. A visibilidade dessa comunidade e da sua produção artística é atual, necessária e urgente, visto que ainda é alvo de uma grande violência, marcada pela tentativa de silenciamento, como se viu com o ocorrido no fechamento da exposição Queermuseu.
Como ação direta em defesa dos direitos de livre expressão artística, sexual e de gênero, interesse direto da comunidade LGBTQIA+ e da sociedade em geral, lançamos o Edital Fora da Margem, que buscou incentivar a produção, circulação, difusão e fruição das artes visuais e do cinema do estado do Rio Grande do Sul. O diálogo entre as artes visuais e o cinema reafirma a necessidade de aproximar as diferentes linguagens, no propósito de celebrar a diversidade e ampliar a visibilidade da discussão sobre a temática LGBTQIA+. Buscamos produzir uma mostra com as mais diversas expressões e narrativas que possam espelhar o momento crítico que vivemos, além de promover a necessária reflexão sobre os desafios que a contemporaneidade nos coloca dentro desta perspectiva cada vez mais presente.
Acreditando que é preciso, em todos os espaços e a todo momento, garantir a democracia, o acesso indiscriminado à cultura e a desmarginalização da diferença, a Associação Chico Lisboa convida para a fruição de nossa Mostra esperando que, mais do que um simples deleite, seja um agente de reflexão e mudança.

Lisiane Rabello
Presidente da Associação Riograndense de
Artes Plásticas Francisco Lisboa