Ben Berardi

A Nova Nova Objetividade
Ou: prá cima com a viga moçada!

Enquanto escrevo, um congolês está sendo morto a pauladas numa praia do Rio de Janeiro, por três bárbaros brasileiros a serviço das milícias, fazendo com que o árabe encontrado morto na praia de Camus seja poesia pura.
Então, quem estiver lendo este texto, saiba que ele foi escrito em um presente excludente, homofóbico. Socialmente injusto e totalitário. E é nesse contexto que existe a exposição Fora da Margem. Ela já nasce como uma das respostas aos dias de hoje e de suas intolerâncias com os plurais. Sua impotente rendição, redução e visão pela singularidade não concebe o fértil, invenções, possibilidades, diversidades. Isso lhe é constrangedor. Em seu universo monocromático e uniforme. Sobretudo uniforme. Nunca Universo.
Quando me perguntaram sobre o que eu esperava, como um dos curadores, das obras que viriam a ser apresentadas para o processo curatorial, respondi: encontrar belas surpresas, novidades, inovações, sensibilidades. E foi o que felizmente aconteceu.
Recebemos propostas, sobretudo jovens, respostas da moçada ao qual se refere o título emprestado de J.D.Selinger, ao nosso contexto atual, tanto social quanto estético; daí o outro título: Nova Nova Objetividade.
Na década de sessenta, anos de enfrentamentos estéticos e sociais, Hélio Oiticica propunha um arcabouço teórico para dar conta das novas demandas e tendências da arte de então. Seu texto diz que nossa arte tem de levar em conta os problemas muito profundos de ordem ético-social e de ordem pictórica-estrutural. Ter uma vontade construtiva geral.
Grande parte das obras que estão presentes nessa exposição me conduziu diretamente aos preceitos desse artista que ainda tanto me toca, e talvez mais hoje em dia. Se não, vejamos: o contexto atual do Brasil, faz com que ainda tenhamos de defender a liberdade de expressão artística, a livre orientação sexual, o direito à existência de sensibilidades e subjetividades Queer, e outras. A possibilidade da diversidade, tanto artística quanto de gênero.
Trabalhos como os de Bruna Abreu, Arthur Caldeira, Eduardo Thomazoni, Laur Peters, claramente apresentam uma vontade construtiva geral, bem como partem para um enfrentamento simbólico a uma ordem ético-social excludente e injusta. Ainda que com estéticas diferenciadas, elas podem estar associadas na pertença a um conjunto de briga, de enfrentamento, de denúncia, de gritos onde se quer impor o silêncio.
Outra das características da Nova Objetividade de Oiticica, tão bem desenvolvida por Antônio Dias (Notas sobre a Morte Imprevista) e Gerchman e Lygia Clark, Escosteguy…praticaram o deslize do objeto até a formulação do não-objeto. O antiquadro, da passagem para o objeto e da significação do próprio objeto. E todo esse deslize semântico, ainda acompanhado de uma ênfase no social e de suas problemáticas em um país que não só não superou os problemas de então, como teve alguns recrudescidos. Retrocessos a épocas ainda anteriores (conceitos pré Revolução Francesa, anticientíficos e fundamentalistas).
Claramente podemos encontrar essa disposição em alguns dos trabalhos a serem fruídos aqui. Gabriela Kostesk, Annie Ruaro, Rafael Dambros…
Não obstante, a noção de performance, ou – outra característica da Nova Objetividade – a participação do espectador (corporal, táctil, visual, semântica etc.) também se faz presente, como nas obras de Torcunha – a máscara-mordaça feita pelo próprio artista em ambiente serralheiro, de um machismo excludente à própria existência do autor – Denise Wichhmann, Felipe Cremonini, só para exemplificar.
E dessa passagem do objeto e da significação do próprio objeto, a grata e encantadora surpresa da obra de Livia Auler. A felicidade de sua criação propondo uma nova História da Arte, trazendo para a cena novos protagonistas que estavam sendo ocultos por uma leitura maniqueísta e misógina. Uma subversão em forma, conteúdo, em perspectiva e arrojo criativo.
Todas essas grandes descobertas parcialmente citadas aqui, ainda ganham a companhia de autorxs que já conquistaram seus espaços de reconhecimento por trajetórias de atuação: Graça Craidy, Inez Pagnoncelli, Fátima Pinto, entre outres.
Creio que os espectadores encontrarão em Fora da Margem, um lindo e arrojado apanhado de artes de nossa época, infelizmente ainda engajados em questões que já deveriam ter sido superadas e em assegurar direitos que já deveriam estar há muito garantidos.
Desde quando Hélio Oiticica propôs a Nova Objetividade. Então, chamemos de Nova Nova Objetividade, uma possível leitura dessa necessária exposição.
Boa viagem aos sentidos.

Neiva Bohns

Sobre o Direito de Existir

A mostra Fora da Margem, aberta ao público na Galeria de Arte do DMAE, em Porto Alegre, apresenta a produção recente de artistas e ativistas, que na sua maioria, integram a comunidade LGBTQIA+. Concebida e organizada pela longeva Associação Chico Lisboa, que sempre defendeu o campo de atuação profissional de artistas, a mostra aqui apresentada constitui-se num manifesto em defesa das liberdades individuais.
Em termos de categorias artísticas, abrange o amplo espectro aberto pelas práticas contemporâneas que envolvem desenho, ilustração, gravura, bordado, fotografia, vídeo, registro de performance, cinema, pintura, escultura, objeto, instalação, e todos os hibridismos decorrentes da integração desses meios expressivos. Como proposição temática básica, o título-tema funcionou como ponto de partida para as respostas dos artistas, cujos interesses e metodologias de trabalho formam um rico ‘conjunto de singularidades’ exposto aos olhares críticos sem dominâncias ou escalas hierárquicas.
O campo artístico, como se sabe, quando se associa ao humanismo, é lugar legítimo de defesa das liberdades individuais e da expressão das subjetividades. Desta forma, boa parte das obras apresentadas nesta mostra confronta os discursos sexistas, classistas e racistas, e coloca em evidência especificidades dos próprios sujeitos envolvidos, sendo que algumas utilizam abordagens erótico-sexuais.
Contra as miradas, às vezes descontextualizadas, do moralismo reducionista, não custa lembrar, por exemplo, que as temáticas ligadas à sexualidade humana, há séculos, estão presentes nas obras de artes visuais. A iconografia erótica, que sempre fez uso de representações de corpos, foi absorvida pela história da arte ao longo dos séculos, com exceção dos tristes períodos em que restrições de ordem política, moral ou religiosa impuseram censuras imagéticas.
Fugindo das estigmatizações mais banais, nem sempre, contudo, o erotismo tem sido o núcleo central das preocupações dos artistas LGBTQIA+. É interessante observar como certas temáticas identitárias foram tratadas pelas(os/es) artistas selecionadas(os/es) para a presente mostra: por vezes as imagens são construídas com a carga dramática das linguagens herdadas do expressionismo, acentuando, por exemplo, o constante sofrimento psicológico e físico dos indivíduos (vide as obras de Eduardo Thomazoni e Arthur Caldeira). Noutros casos, o tratamento dado às imagens adota algo da leveza naif, com obras envoltas por atmosferas edulcoradas, que evocam uma perdida pureza infantil (vide o caso de Fátima Pinto), ou a sedução das ilustrações publicitárias, acentuando as características positivas das situações ilustradas (vide o caso de Thiago Dorsch).
Mesmo quando pautadas pelo humor ácido e pela irreverência, pode sobressair a dimensão fantasiosa, fortemente teatral, muito associada à construção de personagens que habitam mundos paralelos. Rainhas absolutas nos seus espaços de existência, as drag queens estão representadas nesta mostra, como símbolos de resiliência (vide o caso de Inez Pagnocelli).
Algumas obras dão visibilidade a situações obnubiladas pelas narrativas históricas canônicas. Como exemplo, temos a instalação que sublinha a presença da lesbianidade em representações gráficas, fotográficas e pictóricas de obras de arte tradicionais (vide o caso de Lívia Auler). Outras, apresentando coleções de imagens homoeróticas captadas da realidade, dão continuidade a práticas conhecidas, que parecem seguir, propositalmente, o caminho traçado, no Brasil, por Alair Gomes e Hudinilson Jr., já falecidos (vide o caso de Ricardo Ayres).
Vê-se que as opções estéticas raramente se dissociam das escolhas políticas: artistas desejosos de expor suas opiniões, podem optar pelas ações de enfrentamento, ou ao contrário, pelo soft power, que busca, pelo diálogo desapaixonado, despertar a empatia, o respeito, e o senso de humanidade. Em suma, quando artistas LGBTQIA+ usam múltiplos recursos criativos para manifestar inquietações ou reforçar posições, também estão falando por/ para uma parcela da população que, contra sua vontade, se mantêm emudecida e acuada.
São, as(os/es) artistas conscientes de sua função social, legítimas(os/es) representantes de seus pares esquecidos, abandonados e condenados ao ostracismo (especialmente cruel nos tempos da pandemia de COVID-19). Há, sim, portanto, uma dimensão política ativada pelas práticas artísticas, que merece reconhecimento, não apenas pela capacidade de aliviar as tensões internas dos grupos historicamente marginalizados, buscando justiça, como também, por trazer os assuntos mais sensíveis do nosso tempo para o nível da racionalidade, tão necessária ao processo civilizatório.

Sandro Ka

A partir da margem se faz lugar

Não faz tanto tempo, uma exposição foi fechada precocemente em Porto Alegre. O caso seguiu um rastro de infelizes acontecimentos que culminou em um dos episódios mais graves da arte brasileira recente. De querela delirante em prol da família, da moral e dos bons costumes, a exposição Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira foi encerrada e, de imediato, nos vimos imersos numa onda moralista e persecutória à arte. Como consequência, o setor cultural do país mergulhou numa neblina que insiste em perturbar até hoje.
Naquele momento, nos vimos convocados a defender, aparentemente, somente uma exposição. No entanto, mais do que um evento cultural, nos vimos em perplexidade tendo que defender conquistas aparentemente natas a todas as pessoas, como o direito de ir e vir e, especialmente, o direito de ser o que se é. Estavam sob ataque não as quebras de paradigmas que, no século passado, causavam alvoroço nesse mundinho e que foram escrevendo assim, a autocentrada cisheterobranca história da arte ocidental. O que estava em jogo era o direito de pessoas LGBTQIA+ de existir e de se verem representadas numa mostra que, pela temática da diferença, afirmava existências e diversos modos de ser. De certo modo, estávamos nela, ali nos enxergávamos, ainda que houvesse fragilidades e questões em aberto. Presentes ou ausentes, ocupando ou reivindicando lugares: estávamos ali.
Na tentativa de reduzir os danos irreparáveis pelo fechamento da Queermuseu, o Ministério Público Federal firmou um termo de ajuste, em resposta aos movimentos de Direitos Sexuais locais e ao bom senso. Assim, a penalidade converteu-se em diversos projetos culturais com o objetivo de dar visibilidade a temáticas sociais urgentes silenciadas. E uma dessas respostas se configurou na presente exposição Fora da Margem.
Organizada a partir de uma seleção pública, a mostra coletiva reúne uma diversidade de linguagens artísticas que transitam entre a tradição e a contemporaneidade em materialidades e processos criativos que nos lembram que a arte sempre se afirmou como um lugar incontestável de possibilidades. Sobretudo, como um meio discursivo e político de afirmação de temas insurgentes.
Questionar lugares tem sido uma emergência da produção artística contemporânea, sobretudo quando se discute onde e a partir de quem a história e o sistema das artes se organizam. Nesse contexto, por meio de propostas artísticas e reflexões, a história da arte tem sido indagada sobre verdades incontestáveis e lugares até então considerados legítimos. Trata-se de movimentos que não só perguntam, mas que passam a inscrever outras narrativas que incluem histórias à margem sobre pessoas não-europeias, não-brancas e não-cisheterogêneras; que discutem racismo, branquitude, sexismo, machismo, misoginia, LGBTQIfobia e outras formas de violências estruturais. São inscrições que se fazem pela produção de obras e artistas que, como sujeitos centrais ou como aliados, propõem reposicionamentos.
Em suas abordagens temáticas, as obras que compõem esta mostra tratam das dualidades das vivências e violências que se expressam seja por meio do afeto, do desejo, do prazer, do sexo ou da sexualidade de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexuais e assexuais. Sexualidades essas consideradas dissidentes e, portanto, colocadas socialmente à margem.
Margem refere-se a um espaço situado no contorno externo imediato de algo. Também é borda, limite externo e periferia. Comumente, sobre margem nos referimos ao que está fora, do outro lado. Entretanto, nos perguntemos: a partir de onde, a partir de quê, a partir de quem? Afinal, para termos determinado ponto de vista, tomaríamos partido a partir de um lugar de referência. Quais seriam os nossos referenciais?
A margem é, também, índice identitário. Assim como o termo queer foi re-significado para novos usos, do pejorativo à potência dos modos de vida que se colocam na contramão da expectativa de corpos e sexualidades conformadas – como se a única medida possível fosse a cisheteronormatividade compulsória – a margem se transfigura em potência e afirmação. Afinal, que lugar seria esse o da margem? Se situaria entre aqui e lá, entre este e aquele, entre isto e aquilo? Perguntas mobilizam existências. E existências mobilizam perguntas.
Entre obras que se valem da celebração e da afirmação das identidades LGBTQIA+, a exposição Fora da Margem é apresentada como um ato político. Sobretudo, de dentro para fora, do privado para o público e do institucional para o coletivo. Sua proposta curatorial parte de lugares estáveis para estruturas provisórias. Entre a convicção e a dúvida, escolhe a incerteza. O risco aqui é uma aposta quanto a escolhas, abordagens e leituras: é apenas uma expressão dos inúmeros modos de se propor narrativas. E, neste caso, por que não ousar?
A mostra assume riscos e também se assume e toma partido pela não-obviedade de suas apostas e pelo descentramento. Pois, não cabe mais vermos as mesmas coisas, do mesmo velho modo. Há de se ver com e por outros olhos, a partir de outros lugares. Há de se ver do outro lado da margem, afirmar-se nesse lugar.
À medida que afirmamos a margem como lugar, também a reconhecemos como uma medida possível para olhar o mundo. A partir desse lugar, Fora da Margem propõe-se como um posicionamento político, aberto às possíveis formas de se relacionar com a arte, com a vida e com a diversidade sexual e de gênero, em suas potencialidades.

Manuela Fetter Nicoletti

SER MEIO E INTERVIR

Estar fora da margem é uma questão de perspectiva. Afinal, em um mundo cartográfico, quem traça o risco é quem se posiciona e delineia seus limites. E para se posicionar é preciso se reconhecer, estar no seu próprio centro, então situar-se em relação a tudo que há. No universo queer, tudo que está no meio dos extremos é e existe em individualidade. Inclusive, é justamente nos matizes de expressão que cada obra encontra sua luz, seu brilho, sua tonalidade e irradia. Logo, estar fora da margem também significa estar no meio, e estar em meio, ser meio interatuando com o meio, inter-estar.
Os artistas que se expõem e expressam seu inter-ser, através da perspectiva cinematográfica, atuam em escolhas e renúncias. O seu olhar, seu enquadramento, nos propõem seus pontos de vista como pontos de partida. Alguns se posicionam diante das lentes e nos entregam sua mais íntima versão, outros coordenam como maestros movimentos narrativos que pintam e bordam na tela suas intenções. Juntas, suas obras despencam das margens e nos concebem cor e conforto no abismo da pluralidade.
Neste espectro libertador e elíptico da arte, a mostra fílmica nos oferece três cursos de voo. O primeiro parte do mais alto zênite da cinematografia experimental e circense, através dos trabalhos Epiceno e Para Natalie, respectivamente das artistas Carol Martins e Lívia Auler. Epiceno se mostra como um perfeito ritual de entrada, um portal que se abre em cena e em celebração. O filme nos enfeitiça com um fino sortilégio e dilata nossas pupilas à expressão plasmática da hipermodernidade e suas nuances furta-cor de gênero único. Após cruzarmos esta ponte, chegamos à poesia lírica de Para Natalie, que nos introduz literariedades sensíveis de reflexão, transpondo uma dissertação acadêmica à luz e câmera de uma declaração de amor. Com ela, enxergamos a força propulsora de uma história, literalmente, divisória, e logo criadora, de mundos.
Diante deste novo mundo que se abre, nossa jornada adota um tom auto documental. Conhecemos as obras Sintomático, Adaptações e Corpografia na Cena e toda a potencialidade de existência de seus realizadores. A abordagem adquire ritmos narrativos convidativos e intuitivos, entramos pela janela da tela, nas vidas de Marina Pessato, Kanauã Nharu e Ajeff Ghenes. Sintomático nos leva a circular pelo interior do RS e, através das heranças de uma era de sombras, que influenciou nosso percurso enquanto sociedade, cria túneis submersos e escuros de unificação pela ignorância. Já Adaptações dança em nossos corpos e eleva nossa espectatorialidade a um nível de consciência regenerativa e curativa, que insurge em evolução e desenvolvimento constante via o autodescobrimento. Eis que, depois do elixir composto por estas duas obras, chega-se ao momento de sublimar tudo que pode estar nos limitando em mente, corpo e coração, ao adentrarmos no caminho das evidências em Corpografia em Cena. Por este filme, começamos a navegar, fluímos soltos em topografias desconhecidas até reconhecermos, entre relevos e planícies, cenas de nossos próprios corpos e mapas das nossas próprias cenas, através de uma experiência de espelhamento em alteridade e de equivalência em autenticidade.
Por fim, a terceira onda do nosso mergulho nos embebeda de personagens, diálogos, fotografias e montagens ficcionais e fantasiosas de histórias vividas ou memórias cinematográficas de verdade em transparências. Os filmes Ave Maria e Bicha Camelô, percorrem das esferas cotidianas à percepção onírica da realidade e trazem à luz enredos que nos avizinham. O primeiro, majestosamente desenhado por Giulia Tomasini, através da subjetividade feminina velada, nos transpõe em belíssimos frames um sopro de flerte e desejo. Já o segundo, espontaneamente alegre, orquestrado por Wagner Ferreira Previtali, através da subversividade masculina, nos expõe em vivazes contrastes, um grito suave de liberação e horizontalidade.
Depois dessa viagem, diluem-se as margens e o dentro se transforma em um espaço de deleite, cor e fluxo, estendido a todos os corpos em celebração.

31 de janeiro de 2022