Breve explanação sobre a obra

Em íntima_colagem_91, encontrei na representação de corpos feminilizados e do espaço urbano uma forma de ocupá-los durante o isolamento social. A videoarte com duração de 1 minuto e 52 segundos é composta por animações quadro a quadro, feitas a partir de desenhos em nanquim e canetas marca-texto e de desenhos digitais. A trilha sonora é constituída por uma série de experimentações sonoras eletrônicas autorais que oferecem suporte rítmico e continuidade às narrativas representadas. As representações animadas de sujeitos feminilizados perturbam a observação analítica do formato dos corpos em benefício da constante mudança de imagens. Assim, fomenta-se uma pedagogia do olhar que, aliada aos ritmos sonoros, o orienta à percepção do movimento e da expressividade em detrimento da forma, uma vez que esta se torna efêmera demais para sua verificação estética (e estática), típica do male gaze e da autovigilância (Frederickson & Roberts 1997). Já as representações do espaço urbano tencionam a potência daqueles corpos no que tange à criação de narrativas sobre a rua. Se não posso estar na rua, transformo minha agência sobre ela, meu direito de ocupá-la e transformá-la, em imagem, som e movimento a partir da minha percepção afetiva sobre ela. A reivindicação política, inerente à ocupação do espaço urbano (Butler 2018), torna-se também estética e afetiva na medida em que represento a rua, como a ocupo e como almejo que ela seja ocupada. 

Assim, as representações desses corpos e desse espaço geram narrativas sobre a rua, sobre meu próprio corpo e sobre a minha relação com a cidade. Tais narrativas me dão agência sobre o espaço urbano, inclusive subjetivando a própria rua. Através das animações que compõem a obra, ponho a rua em movimento a partir do meu olhar. Assim, torno-me tão dona da rua quanto um homem que assedia na tentativa de mostrar que aquele lugar não é seguro para pessoas como eu. Crio narrativas de resistência que mostram que não estou ali só em trânsito, mas que posso contemplar, criar e aparecer naquele espaço como agente que o constitui e tem poder de alterá-lo. A mudança de imagem a imagem que representa o movimento, sempre imaterial, confere-me agência sobre meu corpo e dele sobre a rua.

Currículo

Gabriela João é artista transmídia, formada em Teatro Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nasceu em 28 de junho de 1992, em Porto Alegre, onde reside. Em 2016 ingressou no curso de Licenciatura em Teatro na UFRGS. Participou da performance Leitura Dramática das Normas da ABNT, dirigida por Jéssica Lusia. Sob a mesma direção, fez contrarregragem na peça Almodovar Motopeças nas temporadas de 2016, 2017 e 2018. Em 2017 idealizou e confeccionou o figurino da peça Escorpiãs, onde também fez projeção cenográfica e atuou, assinando também a dramaturgia e a direção coletivamente com o elenco. Em 2018 publicou de forma independente o fac-símile do livro de artista Marcatexto, Nanquim e Chuva. No mesmo ano, atuou e dirigiu coletivamente com o elenco a peça A Cantora Careca, em que fez também projeção cenográfica, voltando à temporada em setembro de 2019 na Sala Qorpo Santo em Porto Alegre. Fez projeção cenográfica da peça Carne Viva do Coletivo Carne Voraz em suas duas temporadas do mesmo ano, na Sala Qorpo Santo e no Teatro de Arena, ambos em Porto Alegre. Ainda em 2019 apresentou as performances Não olha assim pra mim na Fundação Iberê Camargo e Fragmento Barbazul na UERGS, Campus Montenegro. Em 2020, antes da pandemia, apresentou a performance sufoku na Casa de Cultura Mario Quintana. Também em 2020, participou das exposições coletivas via projeção Small Pleasures, de Dina Venue, em Sheffield, Reino Unido e Territorios Virales, do Proyeto Rotatoria no Rojo al Frente em Buenos Aires, Argentina. De forma virtual, integrou a mostra do Festivau de C4nn35 e a exposição Emergências, do Programa de Pós-Graduação em Artes da UNESP. No final de 2020 sua obra em vídeo Até a rua voltar foi contemplada pelo Prêmio Funarte Respirarte na categoria Artes Integradas. Em 2021, integrou a mostra virtual de vídeo do Hipocampo, espaço de arte independente.

Ficha técnica:

Título: colagem_9,

Ano: 2020 

Desenhos em nanquim, canetas marca texto e desenhos digitais animados quadro a quadro. Videoarte, 1080 x 1920.